04 · Como se constrói um cenário

Estação 04 · 25 min

Existem vários métodos, mas todos percorrem caminhos parecidos. Conhecer o caminho comum é mais útil, no início, do que dominar um método específico.

Nesta estação

  • as três escolas de planejamento por cenários;
  • as oito etapas do modelo-síntese;
  • duas ferramentas em prática: incertezas críticas e eixos ortogonais;
  • como escrever uma cena.

Três escolas

lógica intuitiva

Shell / GBN

Nasceu na Shell, com Pierre Wack, nos anos 1970. Ênfase em narrativas e no diálogo estratégico. Ferramenta típica: eixos ortogonais.

francesa

La prospective

Michel Godet. Ênfase na análise estrutural do sistema e no jogo dos atores.

probabilística

RAND / Futures Group

Impactos cruzados e análise de impacto de tendências: estima probabilidades e como um evento afeta outro.

Em comum, as escolas trabalham com múltiplos cenários, dão ênfase aos atores e tratam a construção como processo criativo. No Brasil, também é conhecido o método de Grumbach (anos 1990).

O modelo-síntese em oito etapas

Elaine Marcial (2007) comparou os métodos de Godet, da GBN e de Grumbach e chegou a um modelo-síntese. Veja o que se faz em cada uma.

  1. Plano de trabalho, questão principal e sistema

    • Pergunta-guia: O que quem decide precisa saber sobre o futuro? Qual a pergunta sem resposta?
    • O que se faz: Definir a questão principal; o sistema (objeto, objetivo, horizonte temporal, lugar); destinatário, finalidade, prazo, recursos, responsáveis e cronograma; separar o que já se sabe do que falta saber.
    • Ferramentas: Brainstorming
    • Exemplo: Brasil 2035 (Ipea): “Que caminho o Brasil deverá trilhar até 2035 para que tenhamos um país desenvolvido, com uma sociedade mais livre, justa e solidária em 2100?”
  2. Análise retrospectiva e da situação atual

    • Pergunta-guia: Como chegamos até aqui, e por quê?
    • O que se faz: Levantar e analisar o comportamento histórico e atual de dados, fatos e atores. Evitar a “análise de elevador” (só dizer que subiu ou desceu): perguntar por que subiu, o que o mantém, quem estava por trás, o que causou a ruptura. Consultar especialistas.
    • Ferramentas: Fontes abertas e fechadas, primárias e secundárias, humanas (entrevistas, redes de especialistas) e documentais
    • Exemplo: Reconstituir a trajetória do tema e identificar os atores e suas estratégias até hoje.
  3. Identificação das sementes de futuro

    • Pergunta-guia: Que sinais do passado e do presente apontam futuros possíveis?
    • O que se faz: Gerar e justificar sementes: tendências, fatos predeterminados, fatos portadores de futuro, incertezas, surpresas inevitáveis, curingas, cisnes negros e estratégias dos atores.
    • Ferramentas: Brainstorming com post-its, em plenária
    • Exemplo: Ex.: em um estudo, gerar até 5 sementes por pessoa, agrupar e escolher até 12.
  4. Definição dos condicionantes de futuro

    • Pergunta-guia: Quais eventos e atores vão direcionar a lógica dos cenários?
    • O que se faz: Transformar sementes em eventos futuros; classificar incertezas por importância e incerteza; analisar motricidade e dependência das variáveis; identificar os atores mais influentes.
    • Ferramentas: Matriz de incertezas críticas, análise estrutural (motricidade × dependência), matriz de atores, jogo dos atores
    • Exemplo: Ex.: escolher 8 eventos e 12 atores e pontuar sua influência de 0 a 3.
  5. Geração dos cenários

    • Pergunta-guia: Que futuros alternativos resultam da combinação dos condicionantes?
    • O que se faz: Definir a lógica dos cenários, a filosofia de cada um, dar títulos e escrever as cenas. É um processo criativo e de escolhas.
    • Ferramentas: Eixos ortogonais, análise morfológica, Delphi, impactos cruzados
    • Exemplo: Bug 2000: Cotidiano, Shangri-lá, Apocalipse e Nostradamus.
  6. Testes de consistência e ajustes

    • Pergunta-guia: As histórias se sustentam?
    • O que se faz: Especialistas verificam se o enredo é possível, se as relações de causa e efeito estão corretas, se os atores são responsáveis pelos resultados e se as rupturas cabem no enredo. Depois, ajustes e disseminação.
    • Ferramentas: Revisão por especialistas; apresentações, material impresso e digital
    • Exemplo: Trocar as cenas entre grupos e revisar umas as dos outros.
  7. Análise dos cenários e definição de estratégias

    • Pergunta-guia: O que fazemos em cada futuro?
    • O que se faz: Identificar ameaças e oportunidades por cenário, pontos fortes e fracos, objetivos estratégicos, parcerias, opções estratégicas e planos de contingência. Definir o cenário desejado e o alvo.
    • Ferramentas: SWOT, opções estratégicas de Porter, teoria dos jogos, análise multicritério
    • Exemplo: Escolher entre apostar, buscar robustez, flexibilidade ou influenciar.
  8. Monitoramento estratégico

    • Pergunta-guia: Para qual cenário estamos indo?
    • O que se faz: Selecionar indicadores e sinalizadores, acompanhar o ambiente e corrigir o rumo; acionar contingências.
    • Ferramentas: Sistemas de inteligência e de monitoramento do ambiente
    • Exemplo: Bug 2000: relatórios aos executivos e correções contínuas nos planos.

Ferramenta 1 · Matriz de incertezas críticas

Proposta por Peter Schwartz. Liste as variáveis incertas da sua questão e dê a cada uma duas notas de 1 a 5: grau de incerteza e importância para a questão principal. As que ficam no quadrante superior direito (muito incertas e muito importantes) são as incertezas críticas.

Experimente com o exemplo abaixo, sobre a questão “Como estará o ensino superior presencial no Brasil em 2035?”. Os valores são apenas ilustrativos; mova os controles e veja os pontos mudarem de quadrante.

Exercício · Exemplo: importância × incerteza

Variável Incerteza (1–5) Importância (1–5) Incerteza crítica?
1. Demanda por diplomas presenciais 4 5 sim
2. Regulação do ensino a distância 5 4 sim
3. Uso de IA na aprendizagem 5 5 sim
4. Envelhecimento da população 1 3 não
5. Financiamento público das universidades 4 4 sim

Regra: uma variável é incerteza crítica quando incerteza e importância ficam acima do ponto médio (3). Experimente mudar as notas e veja quais variáveis entram ou saem do quadrante crítico.

Ferramenta 2 · Eixos ortogonais

Escolhidas as duas incertezas críticas mais fortes e independentes entre si, cada uma vira um eixo com dois extremos. O cruzamento gera quatro quadrantes, e cada quadrante é a lógica de um cenário. Veja como isso foi feito num caso real.

Caso: cenários para o Bug do Milênio (1999)

Questão: como estará o ambiente na virada para o ano 2000, quando sistemas poderiam falhar ao interpretar a data? Incertezas críticas escolhidas: o funcionamento dos sistemas (energia, telecomunicações, informática) e o grau de informação da população.

Falha nos sistemas Sistemas adequados
População informada Cotidiano
Sistemas falham, mas a população informada mantém a calma e a rotina se adapta.
Shangri-lá
Sistemas funcionam e a população está informada. A virada passa sem sobressaltos.
População desinformada Apocalipse
Sistemas falham e a população, desinformada, entra em pânico.
Nostradamus
Sistemas funcionam, mas boatos e desinformação geram corrida aos bancos e ao comércio.

Os títulos são do estudo original; as descrições resumem a lógica de cada quadrante.

Outras ferramentas frequentes: análise morfológica (combina sistematicamente os comportamentos possíveis de cada componente), análise estrutural (motricidade × dependência das variáveis), matriz de atores, método Delphi (consulta a especialistas em rodadas) e impactos cruzados. Num curso introdutório, basta saber que existem e para que servem.

Escrevendo a cena

Um bom cenário é uma história de futuro. Regras para escrevê-la:

  • Posicione-se no fim do horizonte temporal e descreva aquele momento como se fosse o presente.
  • Conte como se chegou até ali, a partir de hoje, com os verbos no passado.
  • Siga a filosofia do cenário e parta da incerteza mais motriz.
  • Nenhuma variável se movimenta sozinha: há sempre um ator por trás dela.
  • As demais sementes são o “recheio”; quem comanda o enredo são as incertezas.
  • Mantenha consistência e coerência entre os acontecimentos.

Depois, vêm os testes de consistência: o enredo é possível? As relações de causa e efeito estão corretas? Os atores citados são de fato responsáveis pelos resultados? As rupturas descritas cabem no enredo?

Pare e pense

Quais seriam as duas incertezas críticas da sua pergunta? Lembre: devem ser muito importantes, muito incertas e independentes uma da outra.

Anote sua resposta no seu caderno de estudo.

Atividade 4 · fecha a estação · Verifique o que ficou

1. Qual é a primeira etapa do modelo-síntese?

  • a) Geração dos cenários
  • b) Identificação das sementes de futuro
  • c) Plano de trabalho, questão principal e sistema
  • d) Monitoramento estratégico

2. Na matriz de incertezas críticas, as variáveis escolhidas para os eixos são as que têm:

  • a) Alta incerteza e baixa importância
  • b) Baixa incerteza e alta importância
  • c) Alta incerteza e alta importância
  • d) Baixa incerteza e baixa importância

3. Ao escrever a cena de um cenário, deve-se:

  • a) Escrever no futuro, como uma previsão
  • b) Posicionar-se no fim do horizonte e contar o caminho com verbos no passado
  • c) Listar dados sem narrativa
  • d) Descrever só as tendências de peso

Gabarito

Consulte depois de responder.

Atividade 4 · fecha a estação · Verifique o que ficou

  1. 1. c) Plano de trabalho, questão principal e sistema. Tudo começa por delimitar o que se quer saber e para quem.
  2. 2. c) Alta incerteza e alta importância. Incertezas críticas: muito incertas e muito importantes para a questão principal.
  3. 3. b) Posicionar-se no fim do horizonte e contar o caminho com verbos no passado. O narrador está no fim do horizonte e conta o que aconteceu e por quê.