Biografia

Grazielly Baggenstoss é profissional comprometida com limites e possibilidades dos processos de subjetivação e a construção de práticas jurídicas antidiscriminatórias. Sua trajetória acadêmica e profissional se insere no contexto histórico inaugurado pela redemocratização brasileira e pela promulgação da Constituição de 1988, marco jurídico que consolidou princípios fundamentais de igualdade formal entre homens e mulheres e ampliou as possibilidades de autonomia feminina na vida social, econômica e política.

Nascida no período em que essas transformações começavam a ganhar forma no país, Grazielly pertence a uma geração de mulheres que cresceu sob o horizonte simbólico aberto pelas lutas feministas e pelas parlamentares constituintes que atuaram na elaboração da Constituição. Nesse cenário, consolidou-se a possibilidade de imaginar e construir uma nova figura social de mulher: profissional, proprietária, formada e autodeterminada. Esse projeto coletivo de transformação social influenciou profundamente sua formação pessoal e intelectual.

Desde cedo, foi incentivada por pessoas que marcaram sua trajetória: mulheres e homens que, dentro dos limites históricos daquele momento, afirmavam valores como liberdade, autonomia e autodeterminação. A partir dessas referências, desenvolveu a convicção de que a condição biológica atribuída no nascimento não determina o destino das pessoas, pois a humanidade constrói suas formas de existência por meio de processos sociais, políticos e culturais, atravessados por consensos, disputas e projetos de sociedade.

Essa compreensão orienta sua atuação acadêmica. Como professora e pesquisadora, dedica-se a refletir sobre as estruturas simbólicas e institucionais que moldam a experiência das mulheres e influenciam as possibilidades de exercício da liberdade em sociedades contemporâneas, especialmente em contextos capitalistas, nos quais a autonomia material, frequentemente associada à formação profissional, ao trabalho e à independência econômica, que se torna um elemento central para a autodeterminação.

Sua produção intelectual também problematiza os movimentos sociais e políticos que buscam limitar ou descontinuar os avanços conquistados pelas mulheres nas últimas décadas. Em suas análises, evidencia como discursos de culpa, julgamento, controle e violência são frequentemente mobilizados para restringir a autonomia feminina, inclusive por meio de narrativas que pretendem naturalizar papéis sociais a partir da biologia.

Ao longo de sua carreira, Grazielly Baggenstoss tem se dedicado a fortalecer espaços de reflexão crítica, formação acadêmica e ação institucional voltados à promoção de ampliação do simbólico relacionado a gênero e à defesa dos direitos humanos. Seu trabalho combina rigor intelectual, compromisso público e uma perspectiva estratégica de transformação social, buscando contribuir para que novas gerações de mulheres possam exercer plenamente sua liberdade de escolha, seus projetos de vida e sua autodeterminação. Atua, assim, de maneira interdisciplinar, com frentes nas áreas psicológica, jurídica e institucional.

Mais do que uma trajetória individual, sua atuação expressa a continuidade de um projeto coletivo iniciado nas lutas democráticas do país: o de construir uma sociedade em que as mulheres possam existir, decidir e sonhar com autonomia.

Trajetória Profissional

A trajetória acadêmica da Profa. Grazielly Alessandra Baggenstoss é marcada pela construção e consolidação de agendas de pesquisa voltadas à articulação entre direito, gênero e crítica institucional, inaugurando as discussões acadêmicas e institucionais sobre Direito e Feminismos e Direito e Gênero no Sul do Brasil.

Ao longo de sua atuação na universidade, desenvolveu e estruturou temas de investigação relacionados à análise crítica do discurso jurídico, às teorias feministas no direito, às práticas antidiscriminatórias e às relações entre subjetividade, instituições e poder, conectando o campo jurídico com contribuições da psicologia social crítica. Esses temas se desdobram em pesquisas sobre produção institucional de gênero, lugares políticos para mulheres, direitos humanos, acesso à justiça e inovação social no direito, buscando compreender como normas, discursos e práticas institucionais moldam desigualdades e produzem efeitos concretos nas experiências sociais. Essa agenda teórica e empírica tem contribuído para ampliar o diálogo interdisciplinar entre direito e ciências humanas, bem como para introduzir abordagens críticas no ensino jurídico, nas capacitações profissionais e na pesquisa aplicada.

Além da produção intelectual, a professora tem atuado na criação e consolidação de espaços institucionais de pesquisa, formação e articulação acadêmica, reunindo estudantes, pesquisadores e instituições em torno dessas agendas. Entre essas iniciativas destaca-se a coordenação de projetos e núcleos voltados aos estudos de direito e gênero, às práticas antidiscriminatórias e à inovação social no direito, bem como a organização de programas de extensão, cursos de formação e atividades de divulgação científica. Esses espaços funcionam como ambientes de formação acadêmica e produção coletiva de conhecimento, integrando graduação, pós-graduação e interlocução com instituições públicas e organizações da sociedade civil. Por meio dessas iniciativas, busca-se promover redes de pesquisa, estimular novas abordagens metodológicas e fortalecer a produção de conhecimento comprometida.

Ênfase no Micropolítico

Sua atuação inicialmente esteve concentrada no campo macropolítico, especialmente por meio da pesquisa acadêmica, da docência e da participação em projetos voltados à análise crítica das instituições, das normas jurídicas e das políticas públicas relacionadas a direitos humanos, gênero e práticas antidiscriminatórias.  Essa atuação permitiu aprofundar a análise das dinâmicas de poder presentes nas organizações e nos sistemas jurídicos, bem como das formas pelas quais discursos, normas e práticas institucionais impactam a vida das pessoas.

Essa experiência passou também a se desdobrar no campo micropolítico, com a criação de espaços de atuação voltados ao acompanhamento mais próximo de sujeitos e grupos em seus processos profissionais e institucionais. Nesse âmbito, são desenvolvidas atividades como mentorias, sessões de escuta e grupos de escuta, voltadas à reflexão sobre trajetórias profissionais, desafios institucionais, relações de poder no trabalho e estratégias de posicionamento em contextos organizacionais complexos.

Esses espaços buscam oferecer um ambiente de escuta qualificada e análise crítica das experiências vividas, permitindo que as pessoas compreendam melhor os contextos em que atuam e construam caminhos mais conscientes e estratégicos em suas trajetórias.